25/02/2026

Fim do ESG? Ignorar riscos nunca foi bom negócio

Parece tentador em tempos de confusão geopolítica, mas não é boa estratégia de gestão corporativa.

Dar as costas para os impactos pode comprometer a própria sobrevivência e rentabilidade.

Rafael Benke
Advogado com duplo mestrado em direito internacional, é fundador e CEO da Proactiva Results; ex-diretor global de assuntos corporativos da Vale e vice-presidente emérito do Cebri

Recentemente, alguns países têm promovido movimentos explícitos de redução de ambição em sustentabilidade, inclusive com a retomada de estímulos aos combustíveis fósseis e o tratamento displicente dispensado às energias alternativas e às regulações socioambientais.         

A intensificação de guerras econômicas e de tensões geopolíticas desencadeou uma corrida, impulsionada por força maior, por soluções imediatas de segurança energética —geralmente em detrimento de uma trajetória sustentável de longo prazo.

É nesse contexto que surgem análises apressadas sobre o “fim do ESG” ou sobre a chegada de um suposto “ESG 2.0 light”, como se estivéssemos diante de uma versão mais evoluída e ajustada aos novos tempos, em que o ESG precisaria ser “aliviado”. Essas leituras pendulares e taxativas exigem cautela: a simplificação excessiva compromete a compreensão da essência do tema.

É fato que vivemos um novo contexto geopolítico. Uma (des)ordem mundial radicalmente diferente impõe a revisão de diversas premissas. A centralidade do “confronto geoeconômico”, da “polarização da sociedade” e de “conflito armado entre Estados” ficam evidentes no recém-publicado “Global Risks Report 2026”, do Fórum Econômico Mundial. Por consequencia, países têm respondido a esse imperativo e têm patinado em suas jornadas rumo à mais sustentabilidade e à chamada nova economia.

No entanto, confundir essas escolhas estatais com a ideia de um “ESG 2.0” mais brando para as empresas é um equívoco perigoso. Isso sugere que medidas excepcionais adotadas por governos poderiam ser replicadas no âmbito corporativo, com o relaxamento ou a relativização de riscos —como se isso representasse uma evolução do ESG, quando ocorre exatamente o oposto. Esse mesmo Relatório de Riscos 2026 tem os riscos socioambientais como mais da metade dos dez principais riscos, tanto de curto como de longo prazo.

Há um ponto fundamental que frequentemente se perde no debate: países não têm ESG. ESG é gestão corporativa. Trata-se de um sistema de governança e gestão voltado a identificar, endereçar e mitigar riscos e impactos socioambientais que podem afetar empresas, pessoas, operações, cadeias de valor, financiadores, acionistas e reputação. Um ESG bem estruturado reduz e previne impactos nessas dimensões —o que é vital para a sociedade e, literalmente, um excelente negócio.

Países, por sua vez, assumem compromissos e ambições relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), à descarbonização ou à transição para uma nova economia. Para isso, dispõem de instrumentos de política pública e normativos —como licenciamento ambiental, taxonomias e mecanismos de financiamento— capazes de mitigar impactos de curto e longo prazo. No limite, um país pode decidir “chutar o balde” e abdicar de metas ou regras socioambientais, ainda que o custo recaia difusamente sobre a sociedade.

Uma empresa, porém, não tem essa opção. Ela não pode simplesmente virar as costas para riscos e impactos e “aliviar” seu ESG. Fazer isso pode comprometer a própria sobrevivência e rentabilidade do negócio, além de expor seus dirigentes à responsabilização perante stakeholders.

Há uma razão central para essa imposição: o governo reduzir ambições ou regulações socioambientais não elimina o risco socioambiental na realidade…. Ao contrário, tende a ampliá-lo. O risco permanece —seja na forma de conflitos sociais, passivos ambientais ou perdas reputacionais e financeiras. O que muda é apenas quem paga a conta e quando ela chega.

Declarar o fim do ESG —ou defender um ESG 2.0 mais “light”— pode parecer tentador em tempos de urgência e confusão geopolítica. Mas ignorar riscos nunca foi, nem será, uma boa estratégia de gestão corporativa.

Artigo publicado na coluna Tendências / Debates do jornal Folha de São Paulo, em 21 de janeiro de 2026.