Últimas Notícias nº 06 (20/05/2026)

SINICON alerta para crise de mão de obra em infraestrutura

A expansão da infraestrutura brasileira, impulsionada por um ciclo histórico de investimentos públicos e privados, passou a enfrentar um obstáculo considerado estratégico pelo setor: a escassez de mão de obra qualificada. Entidades ligadas à construção pesada e à engenharia alertam que a falta de engenheiros, técnicos e profissionais especializados já compromete o andamento de obras e pode limitar a capacidade de crescimento do país nos próximos anos.

Dados apresentados pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada e Infraestrutura (SINICON) apontam que o Brasil possui, atualmente, um déficit estimado em 75 mil engenheiros, conforme levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). As projeções são ainda mais preocupantes. Segundo o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA), a carência de profissionais pode ultrapassar 500 mil até 2030 e atingir até 1 milhão ao longo da próxima década.

O cenário se torna mais sensível diante do aumento expressivo dos investimentos em infraestrutura. Informações da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) indicam que os aportes no setor alcançaram cerca de R$ 280 bilhões em 2025, o maior volume registrado desde 2014. Os investimentos abrangem áreas estratégicas como logística, saneamento, energia, mobilidade urbana e transportes. Um levantamento, realizado pelo IBRE/FGV, aponta que 71% das empresas da construção também relatam escassez de mão de obra qualificada.

A redução no número de estudantes de engenharia aparece como um dos principais fatores para o agravamento do problema. Dados do MEC/Inep mostram que as matrículas nos cursos de engenharia caíram cerca de 30% na última década, passando de mais de 1,2 milhão de alunos em 2015 para aproximadamente 887 mil em 2024. O movimento ocorre justamente em um período de crescimento da demanda por profissionais ligados à infraestrutura.

Além da queda nas matrículas, o setor observa uma perda de interesse dos jovens pelas carreiras técnicas. Pesquisa do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), em parceria com o Instituto Locomotiva, revelou que apenas 12% dos estudantes do ensino médio pretendem cursar engenharia. Especialistas também relacionam esse cenário às dificuldades de formação básica. O PISA 2022 mostrou que cerca de 70% dos estudantes brasileiros de 15 anos apresentam baixo desempenho em matemática.

Para o diretor-executivo do SINICON, Humberto Rangel, o problema já representa um risco concreto para o desenvolvimento econômico nacional. Segundo ele, o país corre o risco de ampliar os investimentos sem possuir profissionais suficientes para executar as obras com qualidade e dentro dos prazos previstos.

“O Brasil corre o risco de investir em infraestrutura sem ter quem execute essas obras com a qualidade e a velocidade necessárias. Esse é um problema estrutural que precisa ser enfrentado com senso de urgência e visão de longo prazo”, afirma.

Outro ponto destacado pelo setor é a defasagem brasileira em comparação com economias desenvolvidas. Enquanto o Brasil forma entre três e quatro engenheiros para cada 10 mil habitantes, países como Alemanha, Japão e Estados Unidos registram índices próximos de 14 profissionais na mesma proporção populacional.

Na avaliação das entidades empresariais, a falta de capital humano qualificado impacta diretamente a produtividade, aumenta custos operacionais, reduz a eficiência das obras e compromete o retorno dos investimentos em infraestrutura. O receio é que programas estratégicos ligados à habitação, logística e mobilidade sofram atrasos justamente em um momento considerado decisivo para a retomada do crescimento econômico.

Diante desse cenário, o SINICON lançou uma cartilha técnica com propostas voltadas à ampliação da formação em engenharia, fortalecimento da qualificação profissional e maior integração entre instituições de ensino e setor produtivo. A entidade também iniciou uma campanha direcionada a estudantes do ensino médio, com o objetivo de estimular o interesse pelas carreiras ligadas à engenharia e à infraestrutura.

Para especialistas do setor, a superação do déficit de mão de obra exigirá ações coordenadas de longo prazo envolvendo governo, empresas e instituições de ensino. A avaliação predominante é de que, sem profissionais qualificados, o Brasil poderá enfrentar dificuldades para transformar os atuais investimentos em ganhos efetivos de competitividade e desenvolvimento econômico.

Para acessar a cartilha:

https://www.sinicon.org.br/files/Cartilha—Infraestrutura,-Produtividade-e-Capital-Humano-A-Formac-a-o-de-Engenheiros-como-Alavanca-para-o-Crescimento-Sustentado.pdf