Últimas Notícias nº 12 (28/10/2026)
Produtividade da construção civil cai 25,8% em sete anos e Fiesp defende modernização do setor
A construção civil brasileira enfrenta um desafio que vai além da escassez de trabalhadores: a queda da produtividade e a necessidade de modernizar seus processos. Segundo o estudo Mãos à Obra: Emprego e Produtividade na Construção, elaborado pelo Departamento da Indústria da Construção e Mineração (Deconcic) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a produtividade do setor recuou 25,8% entre 2016 e 2023.
O levantamento foi apresentado em 8 de outubro, durante evento realizado na sede da Fiesp, e analisa os principais obstáculos ao desenvolvimento da construção civil brasileira, além de propor medidas para melhorar o desempenho e a competitividade do setor.
Os dados também evidenciam a distância entre o Brasil e outros países. Em 2023, cada trabalhador da construção civil brasileira gerou, em média, US$ 19 mil por ano. O resultado ficou abaixo dos registrados no Chile, com US$ 27 mil, e no México, com US$ 26 mil. Em países mais desenvolvidos, a diferença é ainda maior: nos Estados Unidos, a produtividade alcançou US$ 84 mil por trabalhador, enquanto na Dinamarca chegou a US$ 100 mil.
Para a Fiesp, a recuperação da produtividade depende de uma transformação estrutural, que envolva a qualificação dos profissionais, a melhoria da gestão e a adoção de métodos construtivos mais modernos.
O diretor titular do Deconcic, Newton José Cavalieri, destaca que a produtividade precisa ser tratada como resultado de diferentes fatores ao longo de toda a cadeia produtiva. Entre as prioridades estão a atualização profissional, o uso de tecnologia e dados para aprimorar o planejamento e a industrialização das etapas de construção.
A proposta é tornar os processos mais integrados, eficientes e previsíveis, reduzindo desperdícios e melhorando a qualidade das obras.
Na avaliação de Renato Corona, superintendente de Competitividade Industrial e Inovação da Fiesp, a modernização não deve ser adiada em função das condições econômicas. Segundo ele, a automação e a busca por maior eficiência são tendências que devem ganhar espaço independentemente do cenário do mercado.
Outro desafio apontado pelo estudo é a dificuldade de atrair e manter trabalhadores. A construção civil enfrenta o envelhecimento da mão de obra formal e a redução da participação dos jovens.
Em 2024, 75,1% dos trabalhadores formais do setor tinham entre 30 e 64 anos. Já a participação dos profissionais de 18 a 29 anos caiu de 33,4%, em 2010, para 22,2%, em 2024.
A rotatividade também preocupa. Entre junho de 2024 e maio de 2025, a taxa de rotatividade da construção civil chegou a 63%, colocando o setor na liderança desse indicador no mercado formal.
A saída frequente de funcionários dificulta a formação de equipes experientes, prejudica o acúmulo de conhecimento e aumenta os custos das empresas com recrutamento e treinamento.
Entre as empresas que relatam dificuldades para contratar, 55,1% apontam a falta de interesse dos candidatos e a escassez de profissionais qualificados. Outros 42,1% mencionam a falta de experiência dos trabalhadores disponíveis.
A perda de atratividade da construção civil também está relacionada ao crescimento da chamada economia de plataforma, que reúne atividades realizadas por aplicativos de transporte e entrega.
De acordo com o levantamento, o número de trabalhadores nessas atividades passou de 770 mil, em 2015, para 2,1 milhões no segundo trimestre de 2025, um crescimento de 170% em dez anos.
Esse mercado atrai um perfil de trabalhador semelhante ao encontrado na construção civil, com predominância masculina, presença de jovens e escolaridade de nível médio. A flexibilidade, a autonomia e a possibilidade de organizar a própria rotina são fatores que contribuem para essa preferência.
A diferença também aparece na remuneração média mensal habitual. Em 2024, os trabalhadores de plataformas recebiam R$ 2.996, em média, enquanto os profissionais da construção civil registravam R$ 2.786.
O estudo aponta ainda que 57,7% dos entrevistados demonstram preferência pelo trabalho por conta própria, enquanto apenas 4,8% indicam a construção civil como setor de atuação desejado. Os dados reforçam a necessidade de tornar as oportunidades na área mais atrativas para novos profissionais.
Como resposta aos desafios identificados, a Fiesp defende uma agenda integrada de modernização, com destaque para a industrialização e a digitalização dos processos construtivos.
Entre as medidas propostas estão a ampliação do uso do Building Information Modeling (BIM), metodologia que permite criar e gerenciar modelos digitais de edificações, além da padronização de componentes, da mecanização, da pré-fabricação e da construção modular.
Essas soluções permitem transferir parte das atividades dos canteiros para ambientes industriais, favorecendo o planejamento, a integração entre etapas e o controle da qualidade. Com processos mais organizados, as empresas podem reduzir desperdícios, retrabalho e prazos de execução.
Referências internacionais analisadas pelo estudo indicam que os métodos construtivos industrializados podem reduzir entre 60% e 80% as horas de trabalho nos canteiros de obras e diminuir entre 14% e 50% a necessidade de mão de obra.
Os resultados reforçam o potencial dessas tecnologias para enfrentar a escassez de profissionais e elevar a produtividade, embora sua adoção dependa de investimentos, planejamento e adaptação das empresas.
Escolaridade abre oportunidades para a transformação
Apesar das dificuldades, o estudo identifica avanços na escolaridade dos trabalhadores da construção civil, o que pode facilitar a qualificação e a adoção de novas tecnologias.
Atualmente, mais de 60% dos trabalhadores formais do setor possuem pelo menos o ensino médio completo. Em 2010, esse percentual era de 33,8%.
O avanço representa uma oportunidade para ampliar programas de capacitação e preparar os profissionais para novas funções, especialmente aquelas relacionadas à operação de equipamentos, à gestão digital e aos métodos industrializados.
Para Carlos Laurito, gerente do Departamento de Relações Institucionais, que participou do evento representando o SINICESP, a escassez de mão de obra qualificada e seus impactos diretos na produtividade é tema recorrente nos levantamentos do Sindicato sobre as dificuldades de suas empresas associadas.
Como forma de mitigar o problema, o SINICESP renovou neste ano o Acordo de Cooperação Técnica com o SENAI/SP para a formação e qualificação dos colaboradores das empresas para mais de 40 funções, após consulta realizada junto às empresas associadas. Os resultados têm se mostrado bastante satisfatórios, em especial na capacitação de operadores de máquinas e equipamentos para a construção pesada e mineração.
Os dados apresentados pela Fiesp mostram que a recuperação da produtividade na construção civil exige mais do que ampliar a contratação de trabalhadores. É necessário investir na formação profissional, aprimorar a gestão e incorporar tecnologias que tornem os processos mais eficientes.
Além de contribuir para reduzir custos e melhorar a qualidade das obras, a modernização pode ajudar o setor a enfrentar a rotatividade, atrair novos profissionais e responder às demandas futuras do mercado.
A avaliação da entidade é que a transformação precisa começar desde já, com ações coordenadas entre empresas, profissionais e demais agentes da cadeia produtiva. A combinação entre qualificação, digitalização e industrialização é apontada como essencial para fortalecer a competitividade e garantir a sustentabilidade da construção civil brasileira.
Para acessar o estudo, clique aqui: https://bit.ly/qrMaosAObraFiesp


